Um defensor da Liberdade

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Vitor Alves, capitão de Abril, destacado oficial do Movimento das Forças Armadas, do Conselho da Revolução, e Ministro de vários Governos, faleceu nos primeiros dias do ano. A notícia foi-me transmitida no aeroporto de Lisboa por um velho amigo.

De imediato comprei os jornais do dia e fiquei surpreendido, entristecido, ao mesmo tempo, pelo escasso relevo que era dado ao desaparecimento de uma das mais prestigiadas figuras da revolução dos cravos. Homem de – H – grande, digno, era credor do maior respeito. Arriscou a vida, a carreira militar, a família, para se dedicar a uma causa heróica e ao povo do seu país.
Em contraste, nos mesmos jornais, apercebo-me das páginas inteiras dedicadas ao assassinato de Carlos Castro num Hotel em Nova Iorque. Uma cobertura de luxo tentando desvendar o mistério da morte do cronista do jet-set nacional.
Há noite, já em Zurique, ligo para telejornais dos canais de TV portugueses e assisto a algo degradante. A notícia do desaparecimento de Vítor Alves colocada em rodapé – e longos, longos minutos de supérfluos relatos das paixões do cronista e do crime passional praticado pelo modelo.
Enfim! Estamos num mundo talhado à medida dos aventureiros, bárbaros e loucos!Foram vários e emocionantes os encontros que tive com Vítor Alves; em Lisboa, no primeiro Congresso das Comunidades Portuguesas, quando se deslocou em representação do Presidente da República, General Costa Gomes, e, mais tarde, em conferências e debates sobre a emigração portuguesa, em que a sorte me levou a estar a seu lado. Escusado é dizer que tivemos longas e interessantes conversas sobre a vida e a luta do ser humano.Vítor Alves era um homem calmo, de uma grande cultura, educado, sempre pronto a escutar e a intervir com sabedoria, na procura da verdade, da justiça social e dos valores da democracia. Transportava com ele um grande amor à pátria portuguesa e ao seu povo. Sempre lhe ouvi palavras de grande apreço e de respeito pela diáspora portuguesa.
O seu nome nunca esteve ligado a qualquer escândalo ou acto menos digno, cumpriu brilhantemente as suas funções de militar e de homem de Estado. Esta é a imagem que fica de Vítor Alves, militar de Abril, grande senhor! Graças a si, e a outros homens de tão alta estirpe estamos, hoje, a viver em liberdade e democracia.
Adeus e obrigado, Capitão de Abril!

Manuel Beja