Pedro Costa conquista «Leopardo» de melhor realizador em Locarno na Suíça

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Realizador português venceu o galardão com o filme «Cavalo Dinheiro»

O realizador português Pedro Costa conquistou, este sábado, o Leopardo do Festival de Locarno 2014 para a melhor realização com o filme «Cavalo Dinheiro».

O Leopardo de Ouro, a mais alta distinção do certame, foi para o filme «Mula Sa Kung Ano Ang Noon» (From What Is Before), de Lav Diaz, das Filipinas.«Cavalo Dinheiro» é a primeira longa-metragem de Pedro Costa desde o documentário de 2009 «Ne Change Rien».

O Festival Internacional de Cinema de Locarno, que decorre anualmente na cidade com o mesmo nome, na Suíça, é um dos três mais antigos do mundo, a seguir aos festivais de Cannes e Veneza.

«Cavalo Dinheiro» marca o regresso do realizador à personagem Ventura e ao universo das Fontainhas, depois de «Ossos», «No quarto de Vanda» e «Juventude em marcha».

O filme foi concluído no ano passado, e teve estreia mundial nesta 67.ª edição do Festival de Locarno.

Além de melhor realização, Pedro Costa foi também distinguido com uma menção especial do Prémio FICC/IFFS (Federação Internacional de Cineclubes).

«Listen Up Philip», do norte-americano Alex Ross Perry, obteve o Prémio Especial do Júri, enquanto «Ventos de Agosto», do brasileiro Gabriel Mascaro, recebeu uma menção especial.

Portugal ficou ainda representado noutra distinção do festival: o Leopardo de Melhor Primeira Obra, atribuído ao filme norte-americano «Songs from the North», da realizadora coreana Soon-Mi Yoo, que tem coprodução portuguesa.

A primeira longa-metragem documental de Soon-Mi Yoo, que irá integrar o Festival Internacional de Cinema de Toronto, de 04 a 14 de setembro, é uma coprodução entre a Rosa Filmes e Haden Guest.

O filme explora o enigma da Coreia do Norte com que a realizadora se deparou nas três visitas que fez ao país, numa mistura de imagens, músicas e cinema, que tenta entender a psicologia e imaginário popular dos norte-coreanos.

O Leopardo para a Melhor Atriz foi atribuído a Ariane Labed, no filme francês «Fidelio, L’Odyssée d’Alice», da autoria de Lucie Borleteau.

A melhor interpretação masculina foi a do ator Artem Bystrov, no filme «Durak» (The Fool), do russo Yury Bykov.

Governo felicita Pedro Costa pela conquista em Locarno

O Governo português felicitou o cineasta Pedro Costa, distinguido no sábado no Festival de Locarno, na Suíça, com o Prémio para o Melhor Realizador, pelo filme «Cavalo Dinheiro».

No comunicado divulgado pelo gabinete do secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, afirma-se que Pedro Costa é «uma das vozes mais relevantes do cinema nacional no contexto internacional».

«Pedro Costa tem vindo a desenvolver, ao longo da sua carreira, uma linguagem cinematográfica própria, gerando um contributo pessoal para o património cinematográfico contemporâneo e tornando-se uma das vozes mais relevantes do cinema nacional no contexto internacional», afirma o secretário de Estado, que atesta que «esta distinção é, também, mais um reconhecimento do cinema português».

«O secretário de Estado da Cultura felicita, em nome do Governo de Portugal, Pedro Costa pelo prémio de Melhor Realizador no Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça», lê-se no mesmo comunicado.

No texto é sublinhado que, «com mais de 60 anos, o Festival Internacional de Locarno é considerado, pela crítica, um dos mais importantes festivais de cinema do mundo».

O prémio, patrocinado pela municipalidade helvética de Locarno, tem o valor de 30.000 francos suíços, cerca de 25.000 euros.

Num texto assinado pelo crítico Boris Sollazzo, publicado no portal do Festival, pode ler-se que o filme «Cavalo Dinheiro», é uma afirmação da «desilusão e deceção da Revolução dos Cravos».

«A degradação não apenas física, de Ventura [personagem recorrente do realizador] surge como uma metáfora para todo o país», escreve o responsável de Cinema Show e FilmHouse, no próprio sítio do festival na Internet.

Segundo Solazzo, que também é colaborador de publicações como a Rolling Stone, a Film Tv e La Rivista del Cinematografo, «esta é a última etapa, para já, de uma jornada criativa consistente e poderosa», do realizador português.

«Cavalo Dinheiro», que retoma a personagem Ventura, junta-se assim à trilogia iniciada com “Ossos”, da qual fazem também parte «No quarto de Vanda» e «Juventude em marcha».

Pedro Costa, escreve Solazzo, «não renuncia ao seu estilo seco, nunca condescendente e perto do [do registo de] documentário».

«O legado de [Robert] Bresson parece pesar sobre os seus ombros com uma inspiração forte, ética e esteticamente, o que lhe permite acariciar a grande história e pequenas histórias com graça e lucidez», lê-se no mesmo texto.

«Partindo de um mundo antigo para um pequeno bairro de Lisboa, o olhar [de Pedro Costa] inclina-se para os marginalizados e os miseráveis, a injustiça e as promessas quebradas, conseguindo sair da narrativa visual lusitana para um estilo original, diferente, à sua maneira um clássico – “Ossos”, [exibido] em Veneza, foi chamado por muitos de uma narrativa fílmica entre [Charles] Chaplin e [John] Ford – e muito moderno».

O crítico-chefe da revista norte-americana Variety, Scott Foudas, descreveu «Cavalo dinheiro» como uma «assombrosamente bela contemplação do passado» de Portugal e do «seu futuro incerto», destacando a universalidade das personagens de Pedro Costa, «pessoas [que se podem encontrar] em qualquer sociedade onde as falsas promessas de democracia e do capitalismo cortaram as suas hipóteses».

No inquérito feito pelo próprio festival, junto da crítica internacional presente em Locarno, antes da divulgação dos vencedores, «Cavalo dinheiro» foi o filme preferido, escolhido por Nicholas Elliott, dos Cahiers du Cinema, Maurizio Porro, do Corriere della Sera, Daniele Giacari, da Artspecialday.com, Stefano Della Casa, da Hollywood Party, além de Francisco Ferreira, do Expresso.

Esta foi a segunda vez que o realizador foi distinguido em Locarno. Em 2007 recebeu o Prémio do Júri, por «Memórias».