Lenda sobre a Maldição de Ródão

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Sobranceiras às célebres Portas de Ródão erguem-se, ainda hoje, velhas ruínas de uma antiga fortaleza que o povo diz ter sido o Castelo do Rei Wamba.
Com a bacia hidrográfica do Tejo de um lado e o aprazível e mimoso Vale da Barroca da Senhora do outro, a residência do rei dos visigodos devia ser qualquer coisa de grande e majestosa…
Por ali devem ter passado, em gerações sucessivas, reis e generais, ali se desenrolaram com certeza factos de grande importância para a vida e organização de povos antigos.
A uns e outros se não se refere especial ou circunstanciadamente a história, mas a voz do povo, que nada esquece embora por vezes adultere e confunda, essa soube registar e guardar do velho Castelo a seguinte curiosa lenda da Maldição de Ródão.

Dominavam os visigodos, já convertidos ao cristianismo, na margem norte do Tejo, ao mesmo tempo que na margem sul imperavam os mouros. Certo dia, a esposa de Wamba, esquecendo ódios de raça e deveres de esposa, passou para o campo inimigo e entregou-se ao Rei Mouro.
Wamba, que a idolatrava, jurou vingança.
Não cabia em pessoa da sua estirpe e grande firmeza de ânimo sofrer em silêncio tamanha afronta.
Pundonoroso, honrado até mais não, cada hora que passava sem o ajuste de contas, eram para ele séculos sem fim.
Um dia, resolveu dirigir-se ao castelo Mouro, disposto a arrostar e a sujeitar-se a todos os perigos. Vestido de mendigo, recomendara previamente aos seus, que o espreitassem a distância e que, logo que ouvissem tocar a corna de que se fazia acompanhar, corressem em seu auxílio. E marchou. Os campos eram fáceis e os caminhos regulares.
Andou, andou, para, em pouco, se encontrar em frente do castelo inimigo. Coincidência estranha, a primeira pessoa com quem se encontrou foi a própria esposa. Trocadas poucas palavras, logo ela o reconheceu e exclamou entre hesitante e aflita:
— Estamos perdidos! Esconde-te nesta alcôva porque o Mouro que foi à caça, não demorará.
Wamba, cego de raiva, mas astuto, simulou esquecer a afronta e obedeceu. Poucos minutos passados chegou o Mouro. Recebido com todas as deferências pela adúltera, esta perguntou-lhe:
— Mataste muita caça?
— Sim, tive um dia regular!!
— Pois também eu, respondeu ela, também eu fiz boa caçada. E, nisto, abriu a porta da alcôva.
Wamba, o falso mendigo, estava à vista! Estupefacto, mas satisfeito por ter em suas mãos a vida do seu maior adversário, o Mouro, dirigiu-se-lhe:
— O dia de hoje foi para mim de grande felicidade. Matei muita caça e tenho-te aqui à mão. Quero por isso ser generoso. Vou conceder-te grande privilégio. Ora diz:
— que farias tu, Wamba, se te encontrasses no meu lugar?
Um raio de esperança iluminou o seu coração acabrunhado!
— Apraz-me agradecer a tua gentileza, respondeu Wamba. E, visto que me é permitido lavrar a própria sentença, quero dizer-te que se os nossos lugares se trocassem, obrigar-te-ia a subires ao ponto mais elevado destes sítios e tocares esta corna até rebentares.
— Pois, cumpra-se, disse o Mouro. Não terás de te queixar…
E Wamba foi levado para o ponto mais elevado da residência mourisca, onde tocou, tocou sem cessar. Naquele toque (mal o Mouro o podia adivinhar) estava a salvação do prisioneiro; e por isso a corna não deixava de se ouvir!
Os cavaleiros de Wamba, conforme o combinado, estavam alerta, e tão alerta que, poucos momentos passados, avançavam a todo o galope, por entre imensa nuvem de pó, em direcção ao castelo. Tudo ali estava desprevenido e preparado para lauto jantar; e, após luta rude, mas luta rápida, infrene, o rei Mouro era morto e a infiel esposa conduzida para a outra margem, para terra de cristãos. Wamba, logo que chegou ao seu castelo, mandou preparar grande banquete. Vieram os seus melhores amigos, a sua família, e quando todos comentavam com gáudio e satisfação, a morte do Mouro e a vitória dos cristãos, Wamba tomou a palavra para interrogar seus três filhos.
E disse-lhes:
— Meus filhos: a nossa honra está salva e limpa, tão limpa e pura como de nossos maiores a herdámos. Está morto o Mouro e prisioneira a que é vossa ignominiosa mãe. Pergunto: — se tivésseis esposas que adorásseis e assim procedessem, que lhes faríeis?
Tomou a palavra o mais velho.
— Conquanto me seja de muito pesar emitir opinião em assunto tão melindroso, afirmo que, se o caso comigo se desse, mandaria atar a adúltera à cauda de um cavalo e este corresse tanto, tanto, que a desfizesse em mil pedaços.
O do meio, respondeu:
— Por mim, adoptaria processo mais rápido. Pisá-la-ia e rachá-la-ia de meio a meio.
Restava a opinião do mais novo.
— Não costumo desobedecer às ordens de meu pai, chefe exemplar da nossa família e fiel mantenedor da honra de nós todos, O momento é difícil, mas ante a nossa dignidade própria e a do nosso povo, digo que, se o caso comigo se desse, amarraria a adúltera a uma galga (mó de moinho) e deitá-la-ia por essa ribanceira, até o seu corpo se perder nas águas do rio.
Esta foi, de facto, a ideia que melhor calou no ânimo de Wamba que imediatamente a mandou executar. Presa com segurança a enorme galga, a adúltera foi despenhada pela ribanceira. E rolando, rolando, afundou-se no Tejo, para mais não ser vista…
O povo de Vila Velha diz, ainda hoje, que por onde aquele pestilento corpo passou o mato nunca mais cresceu!
Também, ainda hoje, é voz corrente que a adúltera, ao ter conhecimento da sentença, exclamara:

Adeus Ródão, adeus Ródão,
Cercada de muita murta
E terra de muita puta
Não terás mulheres honradas,
Nem cavalos regalados,
Nem padres coroados!

Graças a Deus, regista-se com satisfação, a profecia não se cumpriu.