Lenda de “Pena Fiel”

0
306

Por volta do ano 950, existia como grande senhora da Região, uma respeitável matrona de alta linhagem, com o nome de Mumadona Dias, viúva do honrado Conde Hermenegildo.
Junto do Túmulo do seu bem-amado esposo, Mumadona passava os dias, onde se confessava chorando a amargura que lhe inundava a alma, e não se cansava de prantear sua triste sorte.
Também junto do túmulo falava dos seus filhos, Nuno e Arriana, dizendo que sem eles a sua vida de nada serviria.
Decerto por tudo isso, quando houve a divisão dos bens deixados pelo Conde Hermenegildo, a chorosa viúva escolheu as melhores terras para os seus filhos predilectos- Arriana e Nuno.
Mas os filhos recusavam dizendo: “Só a morte nos poderá separar de vós!”
Quando Mumadona falava a sua filha em casar ela exclama sempre que nunca iria casar!
Passados uns tempos Mumadona recebeu a visita de um vizinho poderoso, D.Mendo de Sousa, senhor de muitas terras em redor.
D.Mendo, deu a conhecer então a sua visita:
-Senhora conheceis quem sou e quanto valho. Ninguém se me pode comparar em poderio. E assim devereis considerar uma honra, senhora, para vós e para vossa casa, que eu deseje casar com vossa filha Arrifana.
Dona Mumadona, tolhida de espanto só respondeu:
-Perdão, D.Mendo… minha filha chama-se Arriana… e não Arrifana!
Então a teimosia começou entre os dois por causa do nome da filha de Mumadona, até que esta disse que quem ia decidir era a Arriana.
D.Mendo bem relembrou que quem decidia o noivo/a dos filhos eram os pais, mas Mumadona exclamou:
-Não, Senhor D.Mendo de Sousa… nem a vossa fortuna, nem o vosso poder me farão mudar de ideias..
Quem decide acerca do seu próprio coração é minha filha Arriana!
Foi então que Arriana foi informada da vontade de D.Mendo de Sousa, que sempre trocava o seu nome por Arrifana.
Então , nisto Arriana respondeu:
-Senhor D.Mendo, sei bem como sois forte e rico…Iria decerto encontrar em vós um esposo ideal…Mas a verdade é que jurei não casar… e não caso, nem mesmo com o poderoso D.Mendo de Sousa!
Com isto D.Mendo foi embora.
Assim tudo voltou à normalidade. Família unida e feliz. Mas como o povo diz “Não há bem que dure sempre”…
Então surgiu um mal pior… Nuno adoeceu com grandes febres e perigosas…
Durante dias, noites, semanas, as duas mulheres não largaram a cabeceira do enfermo. Foram chamados os melhores físicos e curandeiros, mas tudo em vão.
A vida aos poucos e poucos ia abandonando o corpo de Nuno, que tão vigoroso fora. Ele bem o sentia, elas bem o sentiam. Mas lutavam ainda apesar de tudo.
Elas bem o encorajavam, mas Nuno, todavia, compreendeu perfeitamente quando o momento chegou e disse:
– Não vos quero aflitas… É a minha hora! Quem sabe? Talvez seja o senhor meu pai a chamar-me lá do céu…
Ele sorriu debilmente e disse:
-Pois tendes de me perder… ides ficar sem mim, eu vos digo… Sinto que me estou a afastar da terra.
Elas exclamaram em berros aflitivos:
-Meu filho!
-Meu irmão!
Mas era bem verdade, dolorosamente verdade, Nuno falecera…
Conta ainda a lenda que desde então as duas mulheres, viveram em pranto chorando a morte de Nuno, e que mal chegavam as trevas da noite, a Viúva Mumadona e sua filha Arriana vagueavam por ali, como doidas, desabafando dores e saudades:
– Esta Será para sempre a terra da nossa Pena Fiel pelo nosso querido Nuno!
– Tendes razão filha! Para todo o sempre, esta há-de ficar a ser a terra da nossa Pena Fiel!
Passados anos, Mumadona e Arriana acabaram por morrer a as terras foram parar às mãos de D.Mendo de Sousa, que embora velho e agastado dizia:
-Pois Claro! Já que ela não quis casar comigo em vida, ao menos pertencem-me as suas terras, e vou dar-lhes o nome que tanto gostava: serão as terras de Arrifana de Sousa, para que perpetuem o nome dela e o meu apelido.
As terras ficaram então com este nome, até que D.José I que conhecia a história da dor da saudade pelo jovem Nuno, quis também associar-se à tradição e a 3 de Março de 1770, elevou Arrifana de Sousa a Cidade com o Nome de Penafiel.
A cidade de Penafiel, apesar de ter sido Arrifana situa-se na freguesia de Penafiel…

Tiago Lopes