Jorge Ferreira o cantor emigrante

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PT Comunidades —  O Jorge Ferreira continua a encantar as plateias com os seus concertos nas comunidades portuguesas. Sabemos que vive nos EUA, como consegue conciliar as datas dos concertos com as viagens entre os dois continentes?

Jorge Ferreira  —  Difícel por vezes coordenar tudo, mas tenho um empresário com quem trabalho (Nicky Lemos) que não tem falhado nesse aspecto e em outros aspectos profissionais e artísticos.

PTC  —  A música portuguesa não tem revelado muitos novos talentos…alguns vão  aparecendo e muitos com estilos que se misturam. Assim sendo, como define a sua música: música ligeira portuguesa, ou música popular portuguesa?

JF  —  Musica P’ra Pular Portuguesa lol. ,,, o que tento levar nas minhas músicas é um bom ambiente às pessoas, quer seja música sentimental, marcha, rock ou country,,, de um extremo ao outro  da música,,,, e tentar fazer sentido com a letra numa melodia agradável ,,,, por isso eu próprio tenho dificuldade em difinir o meu tipo de música  porque vou de um extremo ao outro da música. Quanto aos novos talentos que vão aparecendo no mercado,,,,, muitos teem  possibilidades de dar continuação e serem bem sucedidos mas não vão muito  além por não haver editora que os ajude porque também não podem devido aos  fracos orçamentos que hoje teem neste mundo de pirataria e internet ,,,  outros não teem mesmo possibilidades porque nao há mesmo talento suficiente.

PTC —  Algumas das suas músicas são tocadas em quase todas as festas de bailes e já há alguns anos….Como se sente em relação à receptividade que as suas canções transportam ao longo dos anos?

JF  —  Muito feliz em saber que os meus poemas teem esse interesse, e é atravez desse interesse que me dá a força para poder dar continuação à minha carreira.

PTC  —  Pensa que as letras das suas canções são o reflexo da vida de emigrante, tanto que o Jorge Ferreira também emigrou muito cedo?

JF  —  Concordo perfeitamente e como emigrante que sou já há muitos anos, pois é normal que muitas das minhas canções são desabafos em letras que falam aos portugueses espalhados por esse Mundo fora.

PTC  —  Como analisa a actual situação da música em Portugal?

JF  —  Vou-lhe responder a esta pergunta em duas partes, actuações ao vivo e gravações de CDs: No que diz respeito a actuações ao vivo, devo dizer que lamento o facto de que 90% dos artistas que actuam com banda em Portugal e até em comunidades, usam os chamados «Tracks» ou seja «Pistas Gravadas» isto quer dizer que muitos artistas com suas bandas vão ao palco e na maioria niguém toca e niguém canta, mas sim só estão a fingir que cantam e tocam, outros só usam pistas para ajudar a preencher a música, o  que também acho ridículo porque se um artista quer mais música ao vivo, tem de por mais músicos a tocar. lol. Analizando tudo isto, a meu ver, acho que nem só o público está a ser enganado porque pensa estar a ouvir um artista e sua banda ao vivo e  afinal está a ouvir um disco a tocar, basta olhar para as mãos destes musicos enquanto actuam, que algo no ouvido não corresponde ao que estão a ver. Acho tambem que se um músico ou um artista entra num palco para actuar ao vivo e só finge que toca e canta, pois esse músico não merece entrar num palco, porque se não sabe tocar as musicas que estão gravadas, deve dar o lugar a outro que as toque, quanto ao artista que faz isso, pois quer dizer que não tem confiança naquilo que vai fazer ao vivo. Segunda parte desta pergunta, é no que diz respeito a gravações, editoras, promoções, etc. As editoras de hoje, não teem orçamentos para descobrir novos talentos e apostar neles, até porque neste momento fazem muitos sacrifícios para manter os artistas de nome nas editoras, a razão,,,? simples: Hoje quem tem internet, vai buscar praticamente as músicas que quer, gratuitas, e nas feiras, nas festas e até nas ruas há ofertas de CDs e DVDs piratas,,, resultado de tudo isto: As editoras não vendem o suficiente para se manterem de pé, o que também resulta em muitos artistas cairem fora das editoras. A minha previsao é que, em dois ou trez anos, metade dos artistas vão desparecer do panorama musical porque se não teem editora, não teem promoção digna, e se não teem meios financeiros para gravarem por conta própria e saber promover-se, desaparecem por completo e isto é pena que aconteça.

PTC  —  O Jorge é talvez um dos artistas portugueses que mais discos vendeu. Sente de alguma forma que é descriminado pela grande imprensa, incluindo as televisões?
JF
  —  Muitas vezes, sim, sinto que às vezes é preciso pôr cunhas noutros lados e até em outros países para ter uma porta aberta que nessecito. Nunca esqueço, que um dia fui a um programa e ao entrar a porta, lá estava a Sra. que conduzia o programa, esta olhou para mim e disse, você é o Jorge Ferreira, eu respondi, sou, ela disse, graças a um Sr. na Africa do Sul que você hoje está neste meu programa. Bom,,, eu não sabia o que dizer e até certo ponto fiquei um pouco chateado a pensar,,, “será que tem que haver cunhas em outros países para entrar num simples programa no meu país?”. Mas atenção que em questão de televisão, quero deixar aqui bem claro que nos habituais programas da SIC, como o antigo (Fátima) (Zé Figueiras) SIC 10 Horas e outros, teem-me deixado uma porta aberta e sempre me aceitam com o melhor dos agrados cada vez que lá vou, quanto à RTP, tenho ido também aos programas (Verão Total) (Praça da Alegria) (Portugal no Coração) etc. Na TVI tenho ido ao programa do SR. Manuel Luis Gocha, enfim,,, todos esses respeito muito. Na questão de rádios: Um Sr. artista e hoje director de uma grande rádio em Lisboa pediu-me no tempo 300 contos para fazer uma entrevista comigo de 10  minutos,,, eu respondi, muito obrigado mas prefiro comprar 300 contos de CDs e cassetes e oferecer aos meus fans durante as actuações lol., no entanto  esse mesmo Sr. cá esteve nos EUA a fazer uma tourné onde correu muito mal, e até lhe tinha oferecido um microfone que este desejava lol. Por outro lado, não canso de agradecer a Deus, a sorte que eu e todos os  artistas portugueses teem em haver as rádios locais que rodam e promovem a  musica portuguesa em Portugal e mais ainda nas rádios das comunidades, e estas eu digo que é que são as verdadeiras rádios portuguesas. Analizando tudo isto, até nem tenho muita razão de queixa, porque tenho colegas que nunca entaram numa televisão, por isso até tenho tido sorte nesse aspecto. Por outro lado, ha certas revistas em Portugal que nem ligam, lol. Por isso muitas vezes eu digo de dentro do coração, que os portugueses fora de Portugal são muito mais portugueses que os que lá estão e quem quizer ouvir musica portuguesa, ouçam algumas rádios locais em Portugal ou então ouçam as rádios da emigração.

PTC  —  O Jorge é um profundo conhecedor da comunidade portuguesa espalhada pelo mundo. Que ideia tem em relação àquela que tem encontrado na Suíça e em especial a que encontrou neste espectáculo na Engadina.

JF  —  Na verdade, por todas as comunidades que conheo e por onde tenho passado, todas teem a mesma caractarística: O calor humano num espectáculo ao vivo é sempre especial, os sorrisos das pessoas, a alegria que reina durante aquela hora de actuação, as reações das caras que revelam uma saudade e uma paixão pelo nosso país, tudo isto aconteceu neste espectáculo aqui na Engadina na Suíça, e isto é que dá a força a um artista para dar continuação ao que faz.

PTC  —  Para terminar, que mensagem lhe apetece deixar para esta mesma comunidade.

JF  —  Em vez de inventar e pintar palavras aqui, vou neste momento ditar o que o coração me diz: A esta comunidade da Engadina na Suíça, desejo que mantenha esse portuguesismo que aqui vi, que continue com as lindas tradições das nossas raizes, que haja sempre uma união portuguesa e que me mantenham uma porta aberta para que um dia eu possa voltar a entrar nesta mesma nem que seja a título de passeio para rever um povo humilde e acolhador com uma simplicidade que me deixa muitas saudades, a quem agradeço, desde os organizadores ao público que aqui esteve, assim deixando um abraço do tamanho de Portugal.