Entrevista com a Dra. Mariana Góis Neves, Coordenadora do Ensino de Português na Suíça

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Encontrámos a Dra. Manuela Góis Neves, actual coordenadora do ensino da língua e cultura portuguesa na Suíça. Da nossa conversa vos deixamos testemunho. Adelino Sá – Como é que aparece no lugar de Coordenadora? Dra. Mariana Góis Neves – Estou na Suíça desde o ano de 2002. Fui professora de Língua e Culturas Portuguesas durante 4 anos, no cantão de Neuchâtel. Depois vim para o cantão de Friburgo. Como sabe, houve um concurso para Coordenadores através do Instituto Camões. Decidi concorrer porque achava possuir o perfil que o Instituto pedia para esse lugar. Sendo profissionalizada em português e francês; professora de Português língua materna em Portugal; ex-leitora do Instituto Camões em Milão e em França, portanto também com experiência no ensino do português língua estrangeira; tendo um mestrado em Literatura Portuguesa Clássica (feito em França, em Literatura Medieval, mas foi-me dada a equivalência em Literatura Portuguesa Clássica) e um Doutoramento em Literatura Medieval Comparada, feito também em França, achei ter currículo para poder concorrer. E de facto concorri. Fizeram-me uma entrevista, como fizeram a vários candidatos, e fui selecionada. Além do mais, já conhecia grande parte dos professores, o ambiente e o contexto suíços, trabalhava na Coordenação como professora de apoio do QUAREPE (Quadro de Referência para o Ensino Português no Estrangeiro). Esses aspetos, aliados à minha experiência como professora e leitora, fizeram com que eu tivesse sido nomeada Coordenadora na Suíça. Uma das políticas do Instituto Camões é abarcar todos os níveis de ensino, desde o pré-escolar ao superior. AS – Qual foi a maior dificuldade, se é que a houve, quando entrou em funções como Coordenadora? MGN – É a passagem para um trabalho diferente. Um professor dá aulas, prepara e planifica essas aulas, corrige testes e outros trabalhos, reune com os pais, organiza atividades extra-letivas, etc, enquanto o trabalho de coordenadora consiste em gerir uma rede de ensino, a nível de alunos, a nível de professores, a nível de todos os agentes que envolvem essa mesma rede. Por exemplo, elaborar os horários dos professores, pedir de salas, realizar os concursos locais, passar declarações, contactar com as autoridades suíças, autenticar os documentos escolares suíços. Trata-se, sobretudo, de um trabalho administrativo. AS – Muitas Comissões de Pais têm solicitado à Coordenação a abertura de novos cursos. Como está essa situação? MGN – Nós estamos a elaborar a rede de horários para o próximo ano e só nessa altura é que poderei dar uma resposta. AS – Mas há possibilidades disso acontecer? MGN – Estou a fazer os possíveis por isso. Tive em conta este factor, que depende essencialmente dos horários já existentes, do número de inscrições, da capacidade de inserir ou encaixar esses novos cursos nos horários dos atuais professores. Isso implica igualmente a deslocação do professor a uma outra localidade, o pedido de sala, as distâncias percorridas, etc. AS – Vivemos um período conturbado com as manifestações dos professores. Como é que a senhora vê essa situação? MGN – Bem, há alguns pontos a clarificar. Um aspecto é a questão dos salários, outro é a questão dos concursos e o outro é a questão dos horários. Em relação aos cortes salariais, eles atingiram todos os funcionários públicos em Portugal e no estrangeiro. Existem na Suíça algumas situações sensíveis, a nível salarial, em relação a alguns professores, mas isso é um assunto que me ultrapassa porque ele depende directamente do Ministério dos Negócios Estrangeiros, do Instituto de Camões (que, como sabe, é a instituição oficial responsável pelo ensino de português no estrangeiro), e creio, principalmente, do Ministério das Finanças. Lisboa conhece bem esta situação na Suíça, que, aliás, foi relatada pela Embaixada, por mim própria e pelo Sr. Embaixador. AS – O Sr. Embaixador manifestou apoio e interesse por esta situação? MGN – Evidentemente. O Sr. Embaixador recebeu os professores no dia 24 de Janeiro, na sequência de um pedido que lhe foi dirigido pela Dra. Teresa Soares, secretária-geral do STPCL. E manteve um encontro com os professores, no qual se falou dessa questão, que foi muito útil nesse sentido. Nenhum pedido lhe tinha sido endereçado anteriomente para receber quaisquer professores. AS – Mas os professores têm diversos representantes? MGN – Não quero falar dessa questão dos Sindicatos, porque ela diz respeito aos professores, não ao coordenador. Só sei que a Dra. Teresa Soares pediu ao Sr. Embaixador um encontro e que o mesmo se realizou nesta Embaixada no dia 24 de Janeiro, no qual também estive presente. AS – Confirma que estão cerca de mil alunos sem aulas de português? MGN – Se pensarmos nos horários que estão disponíveis, podemos chegar a esse número. Mas não é um número exacto. A partir deles, pode-se, contudo, fazer uma estimativa. O processo concursal esteve atrasado porque se aguardou, e desde sempre se aguardava, a autorização do Ministério das Finanças. Enquanto não houver a autorização do Ministério das Finanças não se pode fazer o preenchimento das vagas, ou seja, não se pode colocar um professor, nem eu posso fazê-lo por iniciativa própria. É necessária uma autorização e essa autorização, logo que recebida há cerca de duas semanas, implicou imediatamente o anúncio de aviso de abertura do concurso no Consulado em Genebra, no Consulado em Zurique, aqui em Berna, e na página electrónica do Instituto Camões. Porque ficaram esses horários livres? Por gravidez de risco, licença de amamentação, licença de maternidade, situações que se foram verificando ao longo do ano lectivo. E por aposentação de três professores que, entretanto, ocorreu. O concurso foi aberto, estamos já a receber candidaturas e penso que dentro de muito pouco tempo tudo vai ficar plenamente normalizado. Já não irá haver alunos sem aulas. Este concurso para o preenchimento destas vagas mostra bem a vontade do Instituto de Camões em continuar com o ensino de Português na Suíça. Aliás, o Instituto de Camões já está a preparar o próximo ano 2011-12 e eu própria já pedi aos professores uma proposta de horário para o próximo ano lectivo. Em relação à última questão que refere, ao facto de alguns professores pensarem em regressar a Portugal devido à questão salarial e à precariedade do seu nível de vida na Suíça, se tal vier a acontecer, pontualmente, teremos que proceder a um novo concurso para substituir esses professores e preencher os seus horários. AS – Então, os cursos vão continuar na Suíça? MGN – Claro que sim. Como já referi, o Instituto de Camões tem a firme vontade de continuar com os cursos de português na Suíça e já se está a preparar o próximo ano lectivo.