Emigrantes em mais uma partida

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Na bagageira do carro, entre as malas de roupa, manda a saudade que haja até chouriços e vinho. O regresso ainda não é agora “Trazes na mala a esperança no coração a dor da partida na alma os sonhos de criança nos olhos as lágrimas da despedida”. Assim começa o poema que a poetisa Vóny Ferreira dedica à emigração e que espelha o sentimento dos emigrantes que, nesta altura, terminam as férias e iniciam a viagem de regresso até ao país onde foram procurar melhores condições de vida. Partem com a bagagem cheia de recordações e de uma saudade que não esmorece. TRISTEZA DA PARTIDA No fim de Agosto é altura de se refazer as malas, encher a bagageiras dos carros, acondicionar garrafas de vinho entre a roupa, encaixar à força queijos, enchidos e doces onde parece já não caber mais nada. “Os carros vão cheios porque hoje já não há o controlo alfandegário que existia até aos anos 90”, explica José Borrego, natural do Fundão e emigrado em Nimes (França) há 40 anos. Este emigrante de 59 anos já se habituou a lidar com as emoções, mas assegura que a principal bagagem que leva no regresso a França “é a tristeza… vou carregado dela, como de vinho e chouriços”. “O coração aperta e sinto um nó no estômago que custa a desatar”, descreve Carla Pires, de 29 anos. Esta jovem está na Suíça há seis anos e não consegue lidar com a despedida. Na última noite antes do regresso a Genebra, Carla juntou a família quase toda, na qual se incluem outros emigrantes espalhados pela Europa, e foram à Festa da Senhora do Rosário, em Quintãs: “É para queimar os últimos cartuchos e levar connosco uma derradeira recordação daquilo que gostamos em Portugal – as festas”. O primo Rui Jorge, de 36 anos, emigrado há quatro em Bordéus, foi à festa para se despedir dela: “Já estou com saudades e ela ainda aqui está”, afirma com os olhos entristecidos. “Só temos oportunidade de nos ver uma vez por ano”, lamenta. A família Rodrigues, radicada em Le Mans (França), é mais pragmática: “Desde que se aproveite bem o tempo que cá se passa, consegue-se recarregar baterias para o resto do ano”, afirma Paulo, o pai, que em conjunto com a esposa Noémia e os filhos Tiago e Diogo fizeram compras de última hora no mercado do Fundão. As redes sociais são hoje um meio importante para minimizar a dor da saudade. Pedro Robalo e a companheira, Natália Duarte, de 27 anos, trabalham em Lyon e usam as novas tecnologias para comunicar com a família e amigos. “Além do telefone usamos diariamente o MSN [Microsoft Messenger] e o Facebook para nos mantermos em constante contacto com amigos e família”, diz Pedro. “Não é a mesma coisa, mas dá para enganar a saudade”, completa Natália. CRISE LÁ COMO CÁ A crise é global. Está em todo o lado. Sem excepção, todos os emigrantes que falaram à Domingo admitem sentir os efeitos dela nos países onde trabalham. Mas são unânimes em dizer que “em Portugal é pior”. Carla Pires admite que “na Suíça as coisas também não estão fáceis”. Mas, pelo menos, “lá ganhamos mais e conseguimos fazer face às despesas e poupar algum”. O primo, Rui Jorge, a trabalhar na construção em França, vai mais longe e diz não perceber como alguns amigos “conseguem sobreviver cá com os ordenados miseráveis”. “Portugal está de rastos e, enquanto assim for, não temos outro remédio que continuar a trabalhar fora”. Sempre que regressa a França José Borrego diz que será o último ano mas a crise mata este seu desejo. “Dizemos que é uma coisa temporária. Mas acabamos por ir ficando porque lá podemos fazer uma vida melhor, com menos aflições. E por muita saudade que a gente tenha, acaba por fazer a vida lá fora. Depois os filhos nascem lá e já não se identificam com o nosso Portugal”, descreve. Por outro lado, completa Paulo Rodrigues, no estrangeiro “há a vantagem de existir uma verdadeira Segurança Social que não nos faz estar anos à espera por uma operação e que não nos cobra muito dinheiro quando estamos doentes. Isso será o que mais falta faz a Portugal”. AINDA COMPENSA O certo é que ninguém se mostra arrependido de ter emigrado. “Antigamente as pessoas partiam para o estrangeiro porque se passava muita fome, havia miséria e a Guerra Colonial”, descreve João Vinhais, que emigrou para os Estados Unidos com 23 anos. “Hoje já não existem essas situações, mas continua a haver necessidades e as pessoas são obrigadas a ir procurar melhor vida”. Se compensa ou não – defende José Borrego – “depende da sorte e da disponibilidade para trabalhar. Mas geralmente compensa, porque a maioria dos emigrantes, se souber gerir o que ganha, consegue viver com conforto e ainda investir em Portugal”. O euro, diz, “retirou algumas vantagens aos emigrantes, mas continua a valer a pena trabalhar no estrangeiro”. Este emigrante reformado passa agora o mesmo tempo em Portugal e em França, onde vivem as duas filhas: “Fiz o que tinha a fazer. Tentei melhorar a minha vida e consegui-o”. José Lucas, de 53 anos, emigrante em França, diz não ter outra hipótese se não continuar no estrangeiro. “É lá que se ganha dinheiro”, desabafa enquanto enche a bagagem do carro com produtos alimentares da Cova da Beira. Sempre que acaba as férias e regressa à Suíça para mais uma temporada de trabalho na construção civil, Manuel Andrade, de 45 anos, natural de Santa Maria da Feira, tem como hábito parar na fronteira de Vilar Formoso e comprar alguma coisa “para combater a saudade”. Come uma sopa e uma bifana que lhe enganam a fome por algumas horas e vai à loja comprar duas almofadas: uma do FC Porto e outra com o escudo e as cores de Portugal. “Sou português com muito orgulho e gosto de o exibir por onde passo. Estou na Suíça há oito anos e pelos vistos tenho que continuar por lá por muito mais tempo. As coisas estão muito difíceis aqui”. O casal António Júlio e Maria da Conceição, de 47 e 46 anos, de Celorico da Beira, estão emigrados em Paris há mais de 30 anos. Foi ela que o levou. “Em Portugal não havia trabalho. Os primeiros tempos foram complicados mas depois adaptamo-nos à nova realidade”, conta António Júlio, trabalhador da construção civil. A mulher dele, Maria, diz que a crise está a afectar todos os países mas em França continua a haver “mais oportunidades”. “Aqui há pessoas a passar muito mal porque não têm trabalho”, lamenta. Já Carlos Dias Miranda, de 35 anos, natural da Póvoa de Varzim, tinha só quatro quando foi para França com os pais. Na altura achou que era “um passeio”. “Estou muito satisfeito com a vida que tenho em Paris”, garante Carlos, empresário com negócios relacionados com serviços à terceira idade. A esposa, Aurelie Brossier, de 35 anos, francesa, gosta de Portugal mas só para a visita de Agosto. “Ela gosta mas prefere a França”, confirma Carlos Miranda, pai de uma menina de quatro anos que até já diz que um dia quer “regressar a Portugal”. Para este emigrante a crise entrou em Portugal mas também em França, mas por cá os problemas sociais “são mais complicados”. “Vive-se uma situação complexa. Tenho muitos primos que estão desesperados porque não conseguem arranjar trabalho em Portugal. Vão ter que emigrar”, vaticina Carlos antes de entrar na carrinha Opel que o levará até Paris. “Para o ano – assegura – haverá mais férias. Se Deus quiser”. NOTAS REMESSAS As remessas dos emigrantes portugueses representam actualmente cerca de 2400 milhões de euros. UM MILHÃO Em 2010, o número de portugueses residentes em países da UE ultrapassou a barreira de um milhão. EMIGRANTES 206 mil na Suíça em 2010 – mais 12% que em 2008. E 70 mil pediram nacionalidade à França em sete anos. DESEMPREGO Cerca de um terço dos desempregados no Luxemburgo são emigrantes portugueses.