Igreja Matriz de Barrô Resende

IPA: Monumento

Nº IPA: PT011813020003

Designação: Igreja Matriz de Barrô / Igreja de Nossa Senhora da Assunção

Localização: Viseu, Resende, Barrô

Acesso: EN 222, ao Km 116,9, a 100 metros

Protecção: MN, Dec. nº 8 175, DG 110 de 02 Junho 1922

Enquadramento:

Rural, a meia encosta, isolado, destacado, em zona de pendor muito inclinado, horizontalizado artificialmente, dando origem a um adro, com muro à volta, tendo acesso por dois portões de ferro, dentro do qual se encontra um cruzeiro. A fachada posterior está virada para a via pública e, junto à mesma, em cota inferior, implanta-se o cemitério. A igreja ergue-se em zona de interesse paisagístico, sobranceira ao rio.

Descrição:

Planta longitudinal composta por nave, capela-mor mais estreita, sacristia e torre sineira adossadas à fachada lateral direita, de volumes articulados, disposição verticalista das massas, com coberturas diferenciadas em telhados de duas e quatro águas. Fachadas em cantaria de granito aparente, em aparelho isódomo, rematadas em cornija, sustentada por cachorrada, com fenestrações protegidas por vidros do tipo catedral. Fachada principal voltada a O., em empena elevada na zona central, com embasamento em cantaria, saliente e demarcado por friso, rasgada por portal escavado, em arco apontado, formando quatro arquivoltas, assentes em impostas salientes e em seis colunelos, assentes em bases simples e com capitéis de decoração vegetalista; as impostas prolongam-se lateralmente em friso e, sobre elas, assenta o tímpano vazado por rosácea quadriolobulada. De ambos os lados do portal e, acima do arco quebrado, três rostos humanos saem do pano mural. Logo acima, corre uma cornija, sobre a qual se rasga rosácea escavada, de círculos radiantes, emoldurada por dois colunelos de fuste liso, capitelizados, de onde saem três arquivotas de arco de volta perfeita, estando a última apoiada em impostas. Ao lado direito, adossa-se torre sineira quadrangular, de três registos delimitados por cornija, tendo o primeiro um óculo na fachada O. e uma porta de acesso na E., o segundo um relógio no lado O. e, um óculo no S. e o terceiro ventanas de arco de volta perfeita, com sinos de bronze, em todas as fachadas. A torre é rematada nos ângulos por pináculos e ao centro da cobertura em coruchéu por bola, que serve de apoio ao cata-vento. Fachada lateral esquerda, virada a N., marcada por seis mísulas, onde assentava um alpendre, rasgada por porta travessa em arco apontado, assente em impostas salientes e formando tímpano cego, envolvido por moldura axadrezada. É ladeado por duas frestas estreitas; no corpo da capela-mor, surge um contraforte e uma janela rectilínea, protegida por grades de ferro. Fachada lateral direita, virada a S., com porta travessa em arco apontado, assente em impostas salientes, com tímpano sem decoração, ladeado por duas estreitas frestas No corpo da capela-mor, janela rectilínea com gradeamento de ferro, encontrando-se do seu lado direito um contraforte. O corpo da sacristia adossa-se ao da capela-mor e, é constituído por janela em capialço, com gradeamento de ferro, e porta de verga recta, protegida por duas folhas de madeira. Fachada posterior, virada a E., cega, em empena coroada por cruz pátea, com um nicho, de arco de volta perfeita, assente em pilastras almofadadas e mísulas, contendo uma imagem da Virgem. Em plano mais recuado e elevado, é visível o corpo da nave, em empena, com cruz pátea, rasgado por um óculo. INTERIOR em cantaria de granito aparente, com cobertura em falsa abóbada de berço de madeira de castanho, em caixotões, com pavimento em lajeado de granito. Coro-alto de madeira, assente em mísulas de cantaria, com guarda de madeira torneada, a que se tem acesso através da torre. Sob este, no lado do Evangelho, pia baptismal em cantaria, com taça hemisférica, ornada por caneluras e assente em pequena coluna; no lado oposto, confessionário de madeira pintada. No lado do Evangelho. púlpito quadrangular, com bacia em cantaria e guarda vazada de madeira, ornada por balaústres, ao qual se tem acesso por escada do lado esquerdo, no mesmo material. À esquerda do púlpito, confessionário volante, existindo outros dois no lado oposto. Arco triunfal apontado, formado por três arquivoltas, a exterior ornada por quadrícula, assentes em impostas e em colunas adossadas à parede, a do lado da Epístola sobre plinto decorado, nos ângulos, por cabeças antropomórficas; são coroadas por capitéis historiados, o do lado do Evangelho com dois carnívoros e o do lado oposto uma cena de caça ou guerra; está ladeado por dois altares com retábulos em talha dourada, colocados em ângulo, dedicados a Nossa Senhora da Piedade (Evangelho) e a São José (Epístola). Ascende-se à capela-mor por três degraus, a qual se divide em três tramos, definidos por arcos formeiros, assentes em colunas adossadas, que sustentam cobertura em abóbada de berço, levemente apontado. No lado da Epístola, porta de acesso à sacristia. Sobre supedâneo de cinco degraus, retábulo de talha policroma, com dourados e marmoreados fingidos, de planta côncava e três eixos definidos por quatro colunas espiraladas, percorridas por espira fitomórfica, assentes em consolas com anjos atlantes. Ao centro, tribuna de volta perfeita, rematada por sanefa de lambrequins, de onde pendem drapeados fingidos a abrir em boca de cena, contendo o fundo pintado com enorme resplendor e trono expositivo de cinco degraus; na base, sacrário com cruz na porta, flanqueado por querubins. Os eixos laterais possuem mísulas, encimadas por baldaquinos com falsos drapeados a abrir em boca de cena. Remate em quarteirões, fragmentos de frontão invertidos, sobre os quais surgem anjos de vulto, e resplendor. Altar paralelepipédico, ladeado por portas de acesso à tribuna.

Descrição Complementar:

Os capitéis historiados do arco triunfal da capela-mor, representam, no lado da Epistola, um guerreiro / caçador com uma lança na mão e corna na outra, anunciando a caçada, ao seu lado esquerdo um quadrúpede e, ao seu lado direito, outro guerreiro / caçador com maça e escudo; frente a este, no lado do Evangelho, dois carnívoros, nas faces laterais, seguram um outro animal, mordendo-lhe a cauda e as orelhas. Os retábulos colaterais são semelhantes, de planta recta e corpo côncavo, constituídos por um eixo, definido por quatro colunas torsas decoradas com putti e fénix policromos, assentes em consolas com a mesma ornamentação e, duas pilastras com folhas de acanto assentes em plintos. As colunas prolongam-se em duas arquivoltas torsas, unidas no sentido do raio. Ao centro, plintos com imaginária, que são enquadrados por pinturas como pano de fundo. Bancos decorados com acantos, integrando sacrários recortados com pinturas nas portas e altares trapezoidais com frontais tripartidos; a estrutura remata em cornija, encimada por cartela flanqueada por anjos de vulto.

Utilização Inicial: Religiosa: igreja matriz

Utilização Actual: Religiosa: igreja matriz

Propriedade: Pública, estatal

Afectação: Sem afectação

Época Construção: Séc. 12 / 13 / 17 / 18 / 20

Arquitecto | Construtor | Autor: Desconhecido.

Cronologia:

Séc. 12 / 13 – execução da Igreja, com o padroado a pertencer a D. Egas Moniz por doação do rei *1; 1208 – por doação de D. Sancha Vermudes, nora de Egas Moniz, o padroado passa para a Ordem dos Hospitalários; séc. 17 – construção da torre; séc. 18 – feitura das talhas; 1890 – reconstrução da torre; séc. 20, final – construção de um coreto, por iniciativa do pároco da freguesia.

Tipologia:

Arquitectura religiosa, românica, gótica, maneirista e barroca. Igreja matriz de planta longitudinal composta, por nave única e capela-mor mais estreita, com sacristia e torre sineira adossada à fachada lateral direita, com coberturas interiores diferenciadas, em falsa abóbada de berço de madeira em caixotões na nave e em abóbada de berço apontado, na capela-mor, iluminada através de rosáceas da fachada principal, de frestas e janelas rectilíneas rasgadas nas fachadas laterais e por óculo sobre o arco triunfal. Fachada principal em empena, elevada na zona central, rasgada por portal escavado, em arco apontado, composto por várias arquivoltas, assentes em colunelos, encimada por rosácea novecentista. Torre sineira maneirista, de três registos definidos por cornijas, o superior rasgado por ventanas de volta perfeita e rematado por platibanda, com cobertura em coruchéu. As fachadas rematam em cornija, assente em cachorrada simples, as laterais rasgadas por portas travessas de perfis apontados. Interior com coro-alto de madeira, tendo púlpito no lado do Evangelho. Arco triunfal em arco apontado, assente em colunas e impostas, flanqueado por retábulos colaterais dispostos em ângulo, de talha dourada do estilo nacional. Capela-mor profunda, de três tramos formados por colunas adossadas às paredes, contendo retábulo de talha policromad, dourados e marmoreados fingidos, do estilo barroco joanino.

Características Particulares:

Igreja de fundação medieval, bastante alterada nas épocas sequentes, destacando-se, na fachada principal, a existência de figuras humanas relevadas, bem como os capitéis historiados na capela-mor e arco triunfal. Vários silhares apresentam siglas e surgem duas cruzes de Malta marcadas na pedra, a ladear o portal principal, que devem ter sido lavradas durante o século XVI, pois a Ordem Religioso-Militar dos Hospitalários, da qual Barrô foi Comenda, só mudou o nome para Ordem de Malta em 1530. No que respeita à rosácea, efectuada no século 20, Carlos A. Ferreira de Almeida compara-a com a da Sé do Porto (v. PT011312140001) e com a Igreja do Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro (v. PT011303150001). Em relação aos capitéis da capela-mor, Jorge Rodrigues estabelece ligação com um dos capitéis da desaparecida Igreja de Amorim e segundo a opinião de M. Gonçalves da Costa, pode incluir-se na linha das igrejas de Escamarão (v. PT011804140004) e São Cristóvão de Nogueira (v. PT011804130008). O retábulo-mor é de talha dourada, bastante elaborada, destacando-se o remate com sanefa, lambrequins e falsos drapeados, bem como os fragmentos de frontão invertido. Os retábulos colaterais, embora de estrutura do barroco nacional, apresentam o remate mais elaborado, revelando um período de transição para o barroco joanino.

Dados Técnicos:

Estrutura autónoma; paredes autoportantes.

Materiais:

Estrutura colunas, capitéis, cornijas, cachorros, modinaturas, pavimento em cantaria de granito; cobertura das naves em madeira de carvalho; guarda do púlpito, guarda do coro alto e portas em madeira; cobertura exterior em telha do tipo nacional; retábulos em talha; suporte dos sinos em metal; sinos em bronze; grades, fechos e lemes das portas em ferro; janelas com vidro tipo catedral.

Bibliografia:

ALMEIDA, Carlos A. Ferreira de, História da Arte em Portugal – O Românico, vol. 3, Lisboa, 1933; COSTA, M. Gonçalves da, História do Bispado e da Cidade de Lamego – A Mitra e o Município, vol. I, Lamego, 1977; PINTO, Joaquim Caetano, Monografia do Seu Concelho Resende, Braga, 1982; Guia de Portugal – Lamego, Bragança e Miranda, vol V, nº. II, Lisboa, 1988; VASCONCELOS, Joaquim de, A Arte Românica em Portugal, Lisboa, 1992; DUARTE, Joaquim Correia, Resende e a sua História, Resende, 1994; RODRIGUES, Jorge, O mundo românico (séc. XI – XIII), in História da Arte Portuguesa, (Dir. Paulo Pereira), vol. 1, Lisboa, 1995; Fotolegenda – o insólito parece ter acontecido em Resende, in O Primeiro de Janeiro, 23 Setembro 2002.

Documentação Gráfica: IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Fotográfica: IHRU: DGEMN/DSID

Documentação Administrativa: IHRU, DGEMN/DSID, DGEMN/DSARH

Intervenção Realizada:

1890 – reconstrução da torre; séc. 20, início – reconstrução de parte do campanário da torre que se encontrava derrubado; DGEMN: 1955 – reparação de telhado e de parte superior do coro; 1959 – reparação dos telhados; 1966 – Apeamento da cobertura de telha em mau estado do telhado, incluindo a limpeza e arrumação das telhas aproveitáveis; desmonte cuidadoso e arrumação dos madeiramentos do tecto de caixotões para nova montagem; construção de telheiros apropriados e resguardos de pano em defesa dos altares de talha existentes; apeamento da armação do telhado, limpeza e escolha dos barrotes em condições de novo aproveitamento; colocação das armaduras de ferro para a betonagem dos frechais sobre as paredes laterais e frontal com embebimento dos tirantes de ferro em linhas da nova armação do telhado; reconstrução da armação do telhado com o tecto interior de caixotões moldurados do corpo na nave, com aplicação dos tirantes de ferro existentes e segundo o traçado e características da época; substituição das peças deterioradas e reposição dos elementos em falta; infusão com óleo de linhaça fervido nos madeiramentos do tecto de caixotões do corpo da nave incluindo a betumação das juntas; 1970 – reparação ligeira dos telhados da sacristia e capela-mor; substituição de madeiramentos que se encontravam danificados e telhas tipo Nacional partidas e em falta; arranjo das vedações e rufos; novo assentamento das beiradas e cumes levantados; limpeza dos entulhos para fora do adro; 1972 – Colocação dos ponteiros e respectivo equipamento mecano-eléctrico no relógio da torre; 1976 – reparação e reconstrução do telhado; 1978 – reconstrução das portas principal e laterais; colocação de rufo de escoamento e defesa contra as águas pluviais na ligação entre a sacristia e a igreja; 1979 -colocação de vitrais armados em chumbo; 1981 – remodelação da instalação eléctrica; 1989 – obras de recuperação dos telhados, com substituição dos elementos apodrecidos da estrutura de madeira, colocação de novo forro tapa-pó e substituição de toda a telha em mau estado; 1993 – consolidação do coro; 2002 – colocação de escada metálica na torre, permitindo o acesso ao coro-alto.

Observações:

*1 – segundo um dos autores consultados (COSTA, 1977), posteriormente a paróquia e a igreja foram doadas aos beneditinos do Paço de Sousa por D. Egas Moniz e confirmadas pelos seus herdeiros

Autor e Data: João Carvalho 1997 / Rute Antunes 2006