Escapadela a Viseu – A Cidade das 7 Torres

À chegada, a primeira coisa que se avista são as torres das suas igrejas. Depois é a descoberta de um centro medieval, vestígios de muralhas e antiga judiaria. Tudo, no centro comercial da região centro.

Tínhamos acabado de chegar à cidade e ainda se viam magotes de gente espalhados pela praça do Rossio. Por causa do trânsito falhámos o cortejo das Cavalhadas de Vil de Moinhos, um séquito histórico-etnográfico, típico de Viseu. Naturalmente, os aldeões das terras vizinhas que correram à capital de concelho envergam os seus melhores trajes domingueiros: os homens puseram o chapéu menos coçado pelo sol; as mulheres exibem o ouro luzidio que sobressai sobre as roupas escuras. As pastelarias do centro, em redor da Praça do Rossio, estão apinhadas por quem tenta enganar a sede com uma imperial ou uma taça de vinho branco. Nas ruas laterais, algumas fechadas ao trânsito, o movimento não é menor. Com cerca de 21 000 habitantes, Viseu fica sobre o planalto da Beira, a aproximadamente 300 quilómetros de Lisboa, numa importante encruzilhada de caminhos.

Rodeado por pinhais, em dias claros é possível avistar as vizinhas serras do Caramulo, da Gralheira, de Montemuro e da Nave.Cabeça de um concelho predominantemente agrícola – produz batata, cereais e o delicioso vinho do Dão -, Viseu é, por excelência, o centro comercial da Beira Interior. O painel de azulejos que cobre uma parede no Rossio foi desenhado por Joaquim Lopes mas já ficou para trás quando cruzamos a Porta do Soar, pertencente à antiga muralha afonsina, construída em 1472, de que apenas subsiste um pequeno troço. Ruas estreitas e tortuosas conduzem à cidade velha. Desertas, são uma benesse depois do mar de gente em que tínhamos mergulhado no centro. Os carros enchem o centro histórico e são o toque de modernidade em ruas que parecem ainda medievais: no seu traçado, claro, mas também nas casas de pedra ou de madeira, pequeninas e de portas baixas, nas varandas em balcão ou nos velhos candeeiros de rua.

Estamos agora no cerro mais alto da cidade, o Adro da Sé, local onde se terá iniciado o povoamento desta terra, num velho castro. Alberga a imponente catedral construída entre os séculos xiii e xiv, a Igreja da Misericórdia e o Museu Grão Vasco. Há quem o considere o largo mais bonito do País, com as suas torres pesadas, os muros velhos coroados de ameias e a patine densa das pedras. Actualmente, a catedral está a ser recuperada e há material de obras espalhados por todo o claustro. Na igreja-mãe os serviços religiosos decorrem na penumbra – o que também dificulta a visita -, e o Museu de Arte Sacra está temporariamente encerrado. Ao lado, o Museu Grão Vasco foi instalado no antigo Paço dos Três Escalões, edifício do século xvi que já foi paço episcopal e colégio-seminário.

A Praça D. Duarte é uma homenagem ao infante nascido nesta cidade, depois rei de Portugal, e enquadra-se num emaranhado de ruas que desembocam na Rua Direita, uma das mais antigas e pitorescas da cidade. Estas ruelas, aconchegadas por edifícios antigos com janelas de cantaria e varandas de ferro forjado, viveram os tempos áureos do comércio e ofícios, entre os séculos xiv e xvi. Na parte alta da cidade residia, então, uma importante colónia de judeus, de que ainda existem marcas nas pedras da calçada. Em alguns entroncamentos de ruas o chão está gravado com insígnias judaicas – a estrela de David é a mais frequente -, gastas de tão pisadas.

O monumento mais antigo da cidade fica num dos seus extremos, depois de atravessarmos o rio Pavia. A Cava de Viriato, provavelmente do século ii, deverá ter sido um reduto defensivo levantado para aquartelamento das legiões romanas. Erguido muito depois da morte deste herói lusitano, deve o seu nome a uma tradição que diz ter Viriato andado por estas terras. O acampamento, implantado num fosso, tinha a forma de um octógono de que restam apenas dois lados, medindo cada um 240 metros. Hoje está retalhado por casas agrícolas, pequenas hortas e pomares e não se consegue vislumbrar qualquer vestígio arqueológico. O maior monumento romano de toda a Península Ibérica está rodeado de frondosas árvores e bancos de pedra mais adequados ao namoro do que a um passeio erudito.