Anta da Arca Oliveira de Frades

Datará de finais do século XIX a primeira referência existente sobre a “Anta da Arca”, erguida no Neo-calcolítico desta zona do actual território português.

Deve-se esta menção a José Leite de Vasconcellos (1858-1941), então já na qualidade de director do Muzeu de Ethnologia Portuguez (MEP), que a menciona numa das edições da referencial revista da especialidade, O Archeologo Portuguez, em 1898, onde manifestava a intenção de a explorar, tal como sucedia noutros arqueosítios dos quais tinha conhecimento. Exploração essa que teria lugar apenas em 1921.

Mas o interesse particularmente manifestado por estes testemunhos megalíticos era perfeitamente compreensível, se pensarmos que o seu estudo ganhava maior popularidade entre os investigadores locais, inserido num contexto europeu generalizado que o propiciava, ainda que persistissem algumas das lendas populares que envolviam o significado da sua edificação e utilização desde, pelo menos, a medievalidade ocidental. Além disso, o registo destas antas integrava-se perfeitamente nas principais directrizes de trabalho delineadas pelo Conselho Superior dos Monumentos Nacionaes, cujos vogais efectivos vinham, há muito, pugnando pela inventariação sistemática das denominadas “riquezas artísticas e arqueológicas” do país. E, neste contexto, não surpreenderá que estes exemplares acabassem por ser incluídos na primeira grande listagem dos “monumentos nacionais”, publicada em decreto de 1910, onde, pela primeira vez, entre nós, os vestígios arqueológicos assumiram um estatuto legal equiparável às demais construções humanas, e na qual se contemplava, precisamente, a “Anta da Arca”.

De um ponto morfológico, o exemplar em epígrafe parece não enquadrar-se em nenhum dos tipos sepulcrais sob tumuluspropostos para o megalitismo da Beira Alta (JORGE, S. O., 1994, pp. 134-135), todos eles providos de corredor e edificados grosso modo entre os finais do IV-inícios do III milénio a. C., coincidindo, por conseguinte, com o entendimento genérico de Neolítico final desta região, ainda que alguns exemplares tenham sido reutilizados até ao II milénio (JORGE, S. O., 1990, pp. 134-135).. Apesar desta tendência, encontramos estruturas dolménicas erguidas já em pleno Calcolítico, como será o caso em análise.

Em todo o caso, é possível que as diferentes morfológicas observadas nos dolmens da Beira Alta coexistissem, e não resultassem, propriamente, de um processo evolutivo tout court, decorrendo, pelo contrário, “[…] de uma diferenciação social emergente no seio de comunidades ainda de raiz igualitária; e, neste sentido, o interesse do estudo do megalitismo poderá ser o de ter fossilizado, sob a forma de uma arquitectura da terra e da pedra, um processo capital de evolução estrutural da sociedade (Id.,Idem, p. 135).

De qualquer das formas, estamos perante um dolmen (ou “Anta”, como será mais vulgarmente conhecido na região esta tipologia megalítica) com câmara sepulcral de planta circular (de diâmetro máximo de três metros e setenta e cinco e altura aproximada aos dois e sessenta e cinco), composta de cinco esteios (dois dos quais fracturados) e da respectiva laje – “chapéu” – de cobertura, mas aparentemente desprovido de corredor, embora um dos esteios geralmente atribuído à câmara lhe possa ter pertencido na origem. E ainda que se conheça outra situação análoga na Beira – “Anta de Pera Moço” -, não se poderá eliminar por completo a possibilidade de a inexistência, nos nosso dias, de vestígios do primitivo corredor resultar de uma contínua reutilização secular dos seus elementos constituintes para levantamento de outras estruturas mais consentâneas às necessidades diárias de toda uma comunidade, como seriam, não apenas as habitações, como, sobretudo, os muros de delimitação de propriedade.

Fonte IPPAR [AMartins]