Armando Pereira. De feirante a dono da PT e da TVI

Aos 11 anos já fazia biscates. Foi feirante até aos 14 anos, quando foi para França trabalhar nas obras só com um saco e dois contos no bolso. É um dos donos da Altice, que comprou a PT. E agora a TVI

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Armando Pereira Foto: PAULO NOVAIS/LUSA

Dizem que é discreto. Mas também que aos fins de semana prefere o helicóptero para chegar à sua quinta de 15 hectares em Guilhofrei, Vieira do Minho. O português Armando Pereira, co-fundador da Altice,nova dona da TVI, tem 63 anos, mas começou a fazer pela vida aos 11, com biscates pelo campo. Não se acomodou com a pobreza que o rodeava e deixou a família para trás para, com essa idade, ir trabalhar como ajudante de feirante na zona de Guimarães. Vendia tecidos e foi esse o seu trabalho até aos 14 anos, quando tentou outros voos.

Como muitos portugueses no final dos anos 60, Armando foi para França trabalhar. Mas tinha um problema: ainda não tinha idade legal para o fazer. Teve de arranjar um bilhete de identidade falso que lhe desse 17 anos, a idade mínima para lhe darem trabalho legal. “Lá para França”, onde havia emprego, não levou nada mais — como conta a Challenges no artigo “Armando Pereira, o implacável sócio de Patrick Drahi” — que a roupa que tinha no corpo e dois contos que tinha amealhado no trabalho como feirante . “Vesti dois pares de calças e duas camisolas e pus 2 mil escudos no bolso. Foi tudo o que levei”, contou à Sábado.

Quando chegou a França, a vida não foi fácil. Foi viver para um bidonville (bairro de lata) em Courbevoie, nos arredores de Paris, e dava serventia na construção civil, como contou a Visão. Aprendeu depois o ofício de canalizador e foi mais para os lados de leste do pentágono: Meurthe-et-Moselle, em Nancy, a cerca de 100km da fronteira com Alemanha.

As canalizações que fazia eram na via pública, a abrir valas para passarem canos. Detalhe que se tornaria muito importante: era pelo mesmo subterrâneo que passavam os cabos das telecomunicações. Começou então a instalar cabos de telefone. A sorte que lhe mudou a vida.

Tornou-se então funcionário de uma empresa de telecomunicações. À revista Sábado contou como numa manhã de março de 1985, então com 30 anos, foi à agência do Crédit Agricole, em Épinal, no Nordeste de França, e foi recebido pelo gerente, que conhecia há uma década. “Pedi-lhe 300 mil francos (78,6 mil euros, em valores actuais) para abrir uma empresa. Ele não hesitou um segundo, eu era um rapaz sério“, conta. Conseguiu o crédito, despediu-se e criou a sua própria empresa de telecomunicações: a Sogrepel. Teve outra sorte: a televisão por cabo estava em larga expansão e a sua empresa tornou-se, em pouco tempo, o maior fornecedor da FranceTelecom.

Foi assim que em 1999, quando tinha 44 anos, se tornou milionário: vendeu a Sogretel ao banco holandês ABN Amro, num negócio que rendeu em francos o equivalente a 42,5 milhões de euros. Três anos depois, à mesa de um restaurante parisiense, começou a planear uma sociedade na área das telecomunicações com o seu parceiro — que também tem descendência portuguesa, embora não tão direta (terá antepassados que moraram em Lisboa e no Algarve) — Patrick Drahi. Fundaram a Altice com 60 milhões de euros e começaram por comprar a Est Vídeo.

A Altice cresceu e tornou-se num gigante de telecomunicações, assente no negócio da TV por cabo. Armando Pereira tem atualmente 30% da empresa. Em 2014, a Altice entrou na bolsa e adquiriu o segundo maior operador em francês (a SFR) por 17 mil milhões de euros e ainda avançou para a Virgin Mobile, numa operação de valor inferior 325 milhões de euros. Pela PT, em 2015, a Altice pagou 7,4 mil milhões de euros. Em Portugal, a empresa já tinha comprado em 2002 a Cabovisão (por 45 milhões de euros) e a ONI (por 82 milhões). A PT foi um negócio de outra dimensão.

A primeira coisa que Armando e Patrick fazem quando chegam às empresas é cortar gastos, como os carros topo de gama. Ainda assim, o português é um apaixonado por carros. Até já assistiu de helicóptero — é ele o piloto, sempre que pode — ao rali de Portugal quando este passou pela sua região, na Serra da Cabreira. Até terá financiado dois pilotos franceses para essa prova. É proprietário de Bentleys, mas numa das poucas entrevistas que deu, à revista Sábado, afirmou:

“Gosto de me lembrar de onde vim. Por isso é que nunca me vai ver chegar de Porsche ao escritório”.

O ministro da Economia António Pires de Lima chegou a classificá-lo como “herói” e disse que — embora antes a PT fosse uma empresa “egoísta” — agora estava finalmente em “boas mãos”.

Esta sexta-feira Armando Pereira esteve sentado na fila da frente enquanto em conferência de imprensa eram explicados os detalhes do negócio de compra da Media Capital, proprietária da TVI. O negócio fez-se por valores que rondam os 440 milhões de euros. Eis o novo cavalo de batalha do português.