A lenda do “Castanheiro do Ouro”

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Não longe da cidade de Tarouca que hoje é capital desse território de que o escritor bíblico falaria como se nele corresse leite e mel e ao qual, em jeito de Terra da Promissão deram o título de Vale Encantado, há uma povoação de alegre casario marginando a estrada que recebeu o nome curioso de Castanheiro do Ouro.
Ninguém sabe a razão daquele nome, nem sequer a gente mais velha do lugar, nem o texto de um qualquer cronista faz dele menção em pergaminho.
Corre o nome de geração em geração e é fácil imaginar que vem do tempo da Mourama que foi por ali senhora dos lugares, basta a gente lembrar-se, ali ao lado, de Ardínia.
Diz a lenda, as lendas são sempre textos dourados pelo tempo, que os cristãos se tornaram um dia dominadores destes lugares e que os mouros retiraram à pressa para Sul levando consigo as riquezas de que eram possessores. Mas houve um, cujo nome não sabemos, era mercador e não pôde carregar todo o ouro e pedraria que juntou. E aconteceu que, antes de fugir, escondeu na toca aberta de um velho castanheiro, talvez onde o pica-pau fizera ninho, uma grande bola de ouro. Talvez um dia pudesse ali voltar para a levar. Assim terá pensado o mouro.
O mouro desterrado para o Sul nunca mais pôde voltar àquele lugar.
O castanheiro, esse cresceu. Tinha já mil anos e dava ainda rasas de castanhas.
E foi quando um pastor se aproveitou do tronco esburacado para nele descansar numa tarde de calor, que lá achou a bola de ouro deixada há muito tempo pelo mouro.
Não sabia aquele pastor que a bola de ouro tinha encanto como os brincos e as pulseiras das mourinhas que ficaram encantadas nos outeiros. Nenhuma voz se ouviu para o avisar. E quando o pastor tomou a bola de ouro em suas mãos logo ela em fumo se tornou.
Nunca mais foi o mesmo aquele pastor. Vezes sem conta o pastor contava aquela história e, para fazer crer sua verdade, apontava a mancha negra no tronco esburacado do velho castanheiro. E tanta vez contou o pastor a sua história que o povo do lugar acreditou e deu por nome à sua terra, o nome que para sempre lhe ficou e é ainda, Castanheiro do Ouro.
Por Alberto Correia (Antropólogo)